CABO VERDE - DESCOBERTA e DOAÇÃO


Excerto referente à descoberta das ilhas de Cabo Verde e sua doação a D. Fernando.


No qual tempo diz Luis de Cademusto, que hos nossos tinham nauegado atte ho rio de Senega, a que hos da terra chamam Sonedech, e que hauia jà hum anno que ho Cabo Verde era descuberto, que he tambem contra hà opiniam destes mesmos, que dizem que ho Cabo Verde foi primeiramente descuberto no anno de M.CCCCXLV, por hum Dinis Fernandez, escudeiro delRei dom Ioam primeiro, e que nesta paragem tomou em húa almádia alguns negros que consigo trouxe, e que foram hos primeiros que vieram a Portugal, do que se mostra manifestamente que se ho Cabo Verde foi descuberto per este Dinis Fernandez que seria no Anno de M.CCCCXLIII, porque neste, e nos de M.CCCCXLIIII, e de M.CCCCXL V seguintes, já no Regno hauia muitos negros, que hos que iham descobrir, consigo trouxeram. Este Viçente de Lagos com quem iha Luis de Cadamusto, nauegando pera ho rio de Gambra, se encontrou com hum gentil homem Genoes per nome Antonieto de Nolle, que com liçença do Infante iha tambem a descobrir, e ambos juntos chegaram aho dito rio, e dalli sem mais passarem adiante se vieram pera ho Regno. Hos quaes com liçença do Infante tornaram a fazer viagem no anno seguinte de M.CCCCXL V em hua nao que lhes mandou armar em Lagos, e desta vez descobriram estes gentis homens, has ilhas do Cabo Verde no mesmo anno de Mil, e quatroçentos e quarenta, e çinquo, e não de Mil CCCCLXI, quomo tambem alguns erradamente cuidam, porque no anno de M.CCCCLX, depois do faleçimento do Infante dom Anrrique, fez elrei dom Afonso quinto doaçam dellas, e das terçeiras aho Infante dom Fernando seu irmão. Às quaes ilhas do Cabo Verde estes dous gentis homens chegaram do dia que partiram do Regno a xvj dias, e à primeira que virão poseram nome Boavista, e ha outra Sanctiago e sam Phelippe, por chegarem a ella ho primeiro dia de maio em que cae ha festa destes sanctos, e a terçeira a que foram poserão nome de Maio por lembrança do mes, e dia em que has descobriram. Destas ilhas forão ter aho rio Rha, a quem nos chamamos de Caramansa, nome que lhe deram, porque ho senhor daquelIa terra se chamaua assi, donde nauegarão atte ho Cabo Vermelho, do qual se fezeram ha vela pera ho Regno. Estas ilhas sam per todas onze, e em hua doaçam que elRei dom Ioam segundo fez dellas no Anno de mil, e quatroçentos, e oitenta e noue a dom Emanuel Duque de Beja, e de Viseu, que depois foi Rei muim prospero, e feliçe destes Regnos, se chamão por ordem ha primeira Sanctiago, has outras de Maio, sam Christouam, do Sal, ilha Braua, sam Nicolao, sam Viçente, Rasa, Branca, sancta Luzia e sancto Antonio. (...).

 

(...) Aho qual Infante dom Fernando neste anno ahos xix dias de Setembro reteficou, e confirmou a doação que lhe fezera no anno de M.CCCCLVII,das çinquo ilhas do Cabo Verde que descobrira Antonieto de Nole Ienoes s.: de Sanctiago, sam Phelippe, das Maias, de sam Christouão, e do Sal; e de todalas que por mandado do dito Infante fossem achadas nas partes de Guiné que atte entam eram sete s.: ha ilha Braua. ha de sam Nicolao, sam Viçente, ha Rasa, ha Branca, ha de sancta Luzia e ha de sancto Antonio, todas a traués do Cabo Verde, cujos nomes jà atras declarei; e lhe confirmou ha doaçam que lhe fezera ho Infante dom Anrrique no anno de mil, e quatroçentos, e sessenta, das ilhas de Iesu Christo, e da Graçiosa.



GÓIS, Damião, Crónica do Príncipe João, Edição Crítica e comentada de Graça de Almeida Rodrigues, 1.ª edição, Lisboa, Universidade Nova de Lisboa, 1977, pp. 25-27; 50.






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