ILHA DO FOGO - HISTÓRIA DOS SOBRADOS


SOBRADOS QUE SOBRARAM

SOBRADOS

A Ilha do Fogo integrada no grupo Sotavento foi descoberta, ou se se prefira, achada no dia 1 de Maio do ano de 1460, pelo português Diogo Gomes e pelo genovês António da Nola (há quem escreva de Noli), no mesmo dia em que os marinheiros das suas caravelas avistavam também as ilhas de Santiago e Maio; as três ilhas que em memória da data do descobrimento foram baptizadas com os nomes de Santiago, S. Filipe e Maias. Todavia, falase de tal acontecimento, de raro em raro, com alusão à Ilha do Maio.

 

É que o primeiro grupo descoberto na data cm referência abrange as ilhas meridionais e as ilhas orientais ou sejam: Maio, Santiago, Fogo e Brava, Sal e Boavista. O segundo grupo de Barlavento que foi descoberto no anode 1462, integra Santo Antão, São Vicente, Santa Luzia e São Nicolau. À Ilhade Santiago se chamava ilha de Sam Jacobo e à Ilha do Fogo, Felipe, ambas achadas no dia dos Santos S. Filipe-Santiago. A Ilha do Maio, segundo um raciocínio dedutivo teria tomado o nome da data em que foi achada.

 

O primeiro diploma que se refere a essas ilhas é a carta régia de 3 de Dezembro de 1460, pela qual D. Afonso V, o africano, doou ao Infante D. Fernando, seu irmão, Os Açores, A Madeira e as ilhas de Cabo Verde, então achadas ou sejam: Sal, Boavista, Santiago e Fogo. É de estranhar que essa doação não tivesse abrangido a ilha Brava que fica a 9 milhas marítimas distante do porto de S. Filipe, no dizer de CJ. de Sena Barcelos, in Subsídios para a história de Cabo Verde e Guiné. Essas notas nos ilucidam que a Brava não foi envolvida no supracitado acto de doação pelo seu pequeno tamanho e pelo escarpado das suas arribas. Um pormenor de grande relevo foi a origem da mudança do nome de baptismo da ilha Fellipe para ilha do Fogo; essa mudança resultou da incandescência no cume do vulção vista de longe pelos navegantes. Repare o leitor as seguintes alusões do Frei André de Faro, "Relação de 1663 e 1664":... a do Fogo se estava vendo da ilha de sanctiago de noite he farol dos nauegantes por rezão dó fogo que por um pico muito alto esta lançando sem parar..."

 

Não pretendemos repetir factos históricos que historiadores de renome e pessoas versadas nesta matéria já fizeram e divulgaram através de trabalhos autorizados (que se impõem). O nosso propósito é apenas o de darmos  a conhecer ao puhlico a evoluliu do povuado de S. Filipe.

 

O Povoado de Sam Filipe teria tido o seu início no século XV, por isso que a ilha, pouco depois do seu achamento já tinha sido povoada ao de em 1513 ter então o seu capitão donatário e estava dividida entre grandes proprietários.

 

Na data acima existiam casas baixas e casinhotos. Porém, o povo referência do seu aglomerado urbano de vulto teria sido a construção de um grande sobrado de primeiro-andar de grande dimensão no sítio denominado S. Filipe, propriedade da famlia Monteiro Rebelo, que foi do grande latifundario do Pai de Francisco do Sacramento Monteiro, pai de Jerónimo e Tadeu do Sacramento Monteiro, avô paterno do último Morgado Francisco do Sacramento Monteiro,  O local de S. Filipe fica num planalto sul da Vila e separado do planalto norte por uma ribeira no sentido leste conhecida por "ribeira-de-Nhô Djilormo", no fundo da qual existia uma nascente de água salobra. O sobrado de primeiro-andar já mencionado, de linhas arquitectonicas admiráveis, infelizmente foi demolido depois de vendido o terreno de S.Filipe à Câmara Municipal, entre os anos de 1936-1940, pelo Administrador Rendall (sabe-se lá a razão!).

 

Para melhor darmos uma imagem panorâmica da implantação do aglomerado urbano de então, vamos começar a partir da calçada do Boqueirão, via que conduz o transeunte da Praia de Fonte-de-Vila (1ª via, pois o 2º era o de Nossa Senhora) ao centro, urbano. Com efeito, quen se dirige à Vila tem à sua esquerda, lado oeste, o prédio que foi ...., junto ao qual existem ainda algumas peças de artilharia que evocarem a defesa da vila aos ataques dos corsários; foi Botica e infelizmente, Cadeia Civil.

 

Segundo as memórias de Abilio Monteiro de Macedo, publicadas na "Magma, Ano I1-nll, Nov. De 8) o prédio tinha sido, inicialmente, instalação da Alfândega de S. Filipe. Na verdade, o farolin encarnado lá existe ainda,  a indicar aos navegantes o ancoradouro do porto de S. Filipe. Hoje, o porto utilizado é o de Vale dos Cavaleiros, o nem farol tem. O mar sanhudo os levou.

 

Seguindo para frente e à esquerda, surge-nos a imponente Igreja Católica com os seus belos campanarios, e ao seu lado direilo, os sobrados de Maria Fidalga Sacramento Monteiro (Nhanhana de nhô Padre Amaro, - Amaro ordenou-se padre depois de viuvo), viúva, de João Baptista Vieira de Vasconcelos;

 

Depois o da Nha Firmina. O primeiro tinha sido herdado pelo Pedro Sacramento Monteiro, cujo herdeiros o venderam; segundo foi vendido à Paróquia de N. S. da Conceição;

 

o terceiro passado para Donas Carolina e Antónia Sacramento Monteiro, depois para os herdeiros delas D. Berta Vasconcelos Monteiro, casada com César Ludgero Gomes Barbosa; hoje é propriedade de António José Barbosa, esposa e outros herdeiros. No rés-do-chão desse prédio funcionavam o escritório comercial c armazéns de Pedro Sacramento Monteiro, quem foi juíz qualificado do Julgado Municipal, durante muitos anos.

 

A seguir temos o sobrado de construção dos nossos dias, de Henrique José Mendes, o Henrique de Nha Carlota, feita sobre o terreno que pertencia à Nhana Nhâ Téca. Seguindo, rua acima, um pouco à esquerda, quase a chegar ao Presídio, temos o sobrado, construção mais moderna (sec.XX), de Henrique Rodrigues Pires.

 

Vollando ao ponto de partida - Calçada de Boqueirão, e subindo o viandante tem à sua direita o sobrado primeiro-andar de tipo chalé, que foi de João Vasconcelos Monteiro, irmão do Pedro, Francisco, Antónia, Carolina, Sacramento Monteiro e de António Vasconcelos Monteiro, o "Bedjo Monteiro - Velho Monteiro)", Carolina Sacramento Monteiro, engenheiro agrónomo, homem dado às letras. Em polémica com o dr. João Augusto Martins, a este deu uma resposta em um folheto no início do qual escrevia: - "Amicus Plato  sed magis amica veritas".

 

A seguir fica a casa de Nhô Fidélis Gomes de Pina, conhecida por "cá Nha Mioda", nome de esposa dele; separada da do sobrado de "Nhô Bino", Severino Barbosa Vicente, por uma travessa que vai dar ao sítio de Lém, espaço no qual estão os sobrados de "Nhô Tchôtchô de Nhô Romam", de nome próprio Sebastião Monteiro Teixeira, filho de Nha Djidji, tia de Francisca Sena Monteiro. Pelo apelido Monteiro era parente de Pedro Sacramento Monteiro e do Poeta Pedro Monteiro Cardoso. Encostado àquela casa está a da "Nha Mariquinhas Nha Tchia", costureira então de fama; foi propriedade de Sebastião José Barbosa.

 

Sobrado de Francisco do Sacramento MonteiroVoltando ao começo da travessa, à esquerda, atrás da igreja matriz temos, ao norte, o imponente sobrado de primeiro andar de "Nhô Francisquinho", Francisco do Sacramento Monteiro, último Morgado da Ilha do Fogo, o qual tinha sido funcionário aduaneiro. Era filho de Jerónimo do Sacramento Monteiro e de Ana Benedita Barbosa; era casado com D. Amélia do Sacramento Monteiro, filha de Tadeu do Sacramento Monteiro e de Leonardo Júlia do Sacramento Monteiro. Francisco faleceu no dia 17 de Junho e 1917, e a D. Amélia, no dia 10 de Fevereiro de 1952. O sobrado é separado da Igreja de N. S. da Conceição por uma rua que vai dar ao Largo de Misericórdia, conhecido por Meia Laranja onde, um pouco mais acima, ao norte, ficava o edifício da Câmara Municipal, Secretaria da Administração do Concelho, Secretaria da Câmara Municipal e Tribunal Judicial. Nos baixos desse prédio guardavamse os esquifes municipais, de três tamanhos, destinados à classe pobre.

 

A seguir ao sobrado de Francisco do Sacramento Monteiro "Nhô Francisquinho", sempre à esquerda de quem sobe, está um grande armazém com portas abertas em cantaria, referido por Abílio Macedo nas suas memórias publicadas na Revista Magma atrás mencionada. Foi casa de venda a grosso e escritório de Fidélio do Sacramento Monteiro, irmão de Francisco, Pedro, António, Carolino, João e José do Sacramento Monteiro, que foi Advogado Provisionário na cidade da Praia, Ilha de Santiago; era lambém irmão das Senhoras Donas Carolina e Antónia Sacramento Monteiro. Mais tarde, por volta dos anos de 1923-1924, o mesmo armazém foi escritório e armazém da firma comercial Manuel Gomes Madeira & Filha.

 

O sobrado que se lhe segue, o qual foi de "Nhô Djóca" avô paterno de Abilio Macedo, passou depois para João Cabral Avelino, depois para D. Lia Avelino Henriques Barbosa, casada com Adelino José Barbosa que foi administrador de concelho  do Fogo, durante algum tempo.

 

Fronteiro a esse prédio, do lado direito de quem sobe, portanto, fica o sobrado de "Nha Candjana", propriedade que foi de "Néné de Djóca", João Monteiro de Macedo, pai do Abilio Macedo, e onde este nasceu. O sobrado de "Nhô Bino" que confronta com aquele prédio do lado sul é um sobrado de primeiro andar com janelas para a rua que vai dar à Câmara Municipal; ali residiram durante muitos anos as Senhoras Donas Eugénia, "Nha Djena", Matilde, Natália e Carolina, filhas de "Nhô Quinquim Macedo, de nome inteiro, Joaquim de Macedo, (convém frisar que essa família não tem parentesco com a de Monteiro Macedo, mas sim Vasconcelos).

 

sobrado com varanda corrida de António José BarbosaAo lado direito, no sentido oete leste da casa de Nhâ Candjana fica o sobrado com varanda corrida de António José Barbosa, "Nhô António Nhô Simom".  O "Nhô Antône" era pai de José Barbosa, jornalista, publicista e político, deputado e Ministro das Colónias, presidente do antigo Conselho Superior de .Administração Financeira do Estado, quem fez parte do Directório do Partido Republicano Português que implantou a República. Era também sogro do Advogado dr. António de Barros, casado com D. Amélia,'irmã de José Barbosa, autor do livro "África - Cabo Verde" - o que se viu, o que se disse, o que se cismou, de 1952 para cá", publicado no ano de 1961. António José Barbosa era também pai de Sebastião José Barbosa, o qual foi director dos Serviços de Administração Civil da Guiné e S. Tomé; várias vezes governador, interino. das mesmas provincias.Aposentou-se na categoria de Intendcnte de Distrito, era pai do dr. Honório José Barbosa, Juíz de Relação. No sobrado do " Nhô Antone" se finaram as filhas D. Etelvina, Nha Bibina. Ana Barbosa. O prédio fica ao sul da praça João Vasconcelos, onde outrora havia uma capela de S. João. Esta a razão por que ainda os festeiros deste santo nas noites de 22 de Junho de cada ano - noite de . "canizade" - mandam lá fincar um mastro com uma bandeira no topo, com o cerimonial de tambores e "cantadeiras" não faltando o velho grog (aguardente  de cana). Conta-se  que depois da praça ter sido melhorada com jardins  e o piso cimentado, foi proíbido fincar-se ali o mastro. A D. Bibina Barbosa, senhora muito catolica, convidou o povo a fazê-lo em frente ao seu sobrado ou no quintal ao lado. Nesse mesmo dia o céu escureceu, dando aspccto de inicio de um temporal, enquanto se via lá do alto imagem de uma bandeira. Face a esse quadro que o povo apelidava de milagrc foi logo autorizada a colocação do mastro no seu primitivo lugar.

 

Passemos para o lado esquerdo onde a seguir à sobrado de  "Nhô Djoca" ficavam os sobrados de "Nha Fina", de "Nha Chica Grande", no rés-do-chão do qual o João Vieira de Vasconcelos "Nhô Botista" tinha os escritórios, no dizer de Abílio Macedo.

 

A seguir está o sobrado do Sr. Marino Barbosa Vicente, pai do falecido dr. Marino Barbosa Vicente, Júnior, que foi Julz de Relação, e de José Joaquim B. Vicente que foi funcionário Administrativo. Encostado àquele sobrado está o sobrado de José Joaquim Barbosa Vicente "Nho Che", pai de Marino Barbosa Vicente, Artur, Nhônho, Donas Laura e Djena.

 

A seguir o sobrado que foi de "Nha Amélia," tia de Abílio Macedo; mais tarde de Francisco José Barbosa, o "Chiquinho de Nhontone", irmão de José Barbosa.

 

Seguindo, rua acima, temos o sobrado que foi de João Monteiro de Macedo, Encostado àquele prédio está o sobrado de varanda corrida que pertencera a Luiz Gomes Barbosa (Nhô Lixo), pai de Francisco de Paula Gomes Barbosa, que foi capitão-de-mar-e-guerra, deputado da Nação, governador da Guiné.

 

SobradinhoContinuando no renque de casas do lado direito, para leste, ou seja a seguir ao sobrado de Antonio Jose Barbosa "Nhontone Nhô Simom", ao lado do qual existia um quintalão com dois tamarindeiros, ou seja o prédio cuja construção tinha sido iniciada por João Monteiro Macedo, mais conhecido per sobradinho.

 

À direita desse quintalão, a leste, fica o sobrado de Manuel do Sacramento Monteiro, que foi coronel no Exercito Portugues. Era pai dos oficiais superiores do Exército, João, Tadeu, Leão, e Augusto do Sacramento Monteiro, Inspector administrativo, o qual, no ano de 1936, foi administrador do Concelho de Canchungo - Guiné Portuguesa. O Oficial João tinha sido por mais de dez anos director-geral dos  Desportos em Portugal. Augusto do Sacramento Monteiro  era pai do capitão-de-fragata Leão do Rosado do Sacramento Monteiro, que foi governador de Cabo Verde até vésperas da independência.

 

A seguir, e sempre para o norte, fica o rés-do-chão de "Nha Bébé de Gasosa", mãe de Adriano Carlos Medina, conhecido pelo vulgo por" Nino de nha Bébé", D.Ruth Gomes Barbosa e Cândido Medina.

 

Encostado àquela casa está o sobrado do Dr. Dinis Gomes Barbosa, médico distinto; foi chefe dos Serviços de Saúde da então Colónia de Cabo Verde, e espírito de perfeita cultura, no dizer de Abílio Monteiro de Macedo. Era pai de Aníbal Gomes Barbosa, conhecido por "Aniba Nhô Dinis", o qual foi professor primário e subdelegado do Procurador da República do antigo julgado municipal, pai do capitão-de-fragata César Gomes Barbosa, conhecido por Morgado do Nhô Aniba". Era também pai de Dª Irene Barbosa Peixoto e de Dona Alina Barbosa Henriques, viúva de Aníbal Adolfo Avelino Henriques, ela que aos 92 anos de idade, residia no sítio de Brandão na Ilha do Fogo.

 

A servir de pano do fundo fica o belo edificio da Câmara Municipal, no sentido leste-oeste, com a fachada a debruçar sobre a Praça João Pais Vasconcelos, hoje Praça 4 Setembro, com o seu coreto quiosque, e três jardins.

 

Voltando à rua que fica atrás do sobrado de Manuel do Sacramento Monteiro, "Nhô Mané Monteiro",  portanto, ao sul, deparamos com 2 sobrados, ambas  da "Nhanhana Nhô César", ou seja a viúva de César Gomes Barbosal, irmã do dr. 'Dinis, pai de João e César Ludgero Gomes Barbosa, os quais fora secretários da Câmara e Administração do Concelho, respectivamente. Esses sobrados são hoje da Câmara Municipal. Em um deles está instalada Biblioteca Municipal. O pai da Nhanhana se chamava Eduardo Teixeira e e natural de Portugal.

 

Seguindo rua acima no sentido oeste-este na longa rua que vai dar à Casa Materna, encontramos o sobrado de Álvaro Pires, "Nhorbarino de NI Camila", filho de D. Camila Ferreira  e de António José Pires. A fachada desse sobrado dá para oeste e contorna  a noroeste a rua atrás referida. Homem íntegro, muito honesto e corajoso. Foi proprietário e comerciante. Deixou esta última profissão no início da Primeira Grande Guerra, dizia ele: " ... para não explorar o povo". Em 1917 testemunhar um caso ao Tribunal Judicial da Praia, onde não foi bem acolhido pelo juiz de direito e, sentindo-se ofendido na sua dignidade dirigiu ao magistrado uma lição de moral em carta-aberta, com conhecimento a Ministros das Colónias e da Justiça; esse documento foi publicado no jonais "O Século".

 

À esquerda, um pouco a desviar para um pequeno largo está o sobrado de Ana Macedo Ribeiro "Nha Maninha Totote". A parte traseira do sobrado contorna para a antiga rua Capelo, ou seja, a que' vai dar à Escola Materna. A Nha Maninha era filha de António Sousa Macedo, conhecido pelo vulgo por "Nhô Macedo; este era também pai de Dona Lala casada com D. Tomaz d' Almeida, condutor de Obras Públicas, parente de D, Francisco d'Almeida, Vice Rei da India. D. Alexandre foi durante muitos anos chefe dos Serviços Aduaneiros de Cabo Verde, e algumas vezes encarregado do governo. A Nha Maninha era mãe de Manuel Dias da Cunha Ribeiro, conhecido pelo vulgo por Manuel Totote, este era ilustrado e tinha veio poético. Foi escrivão de mãos cheias do antigo Julgado Municipal do Fogo

 

"Ilha do Fogo, terra ditosa,

Recordo agora o teu passado

Ao som da morna quero cantar

Tua beleza ao sol doirado"

Padre Matias Cláudio Simoes

 

sobrado de Dr. Álvaro Adolfo Avelino HenriquesAo norte da casa de Nha Maninha, contíguo fica o sobrado de Dr. Álvaro Adolfo Avelino Henriques "Nhô dotor Arbi", foi advogado e grande proprietário. Era casado com D. Leonarda Júlia Barbosa e pai .dos senhores Agnelo, António, Aníbal . e D. Lia Henriques. O prédio ficou por herança a pertencer ao filho António. No quintal traseiro havia um chalé todo ele orlado de buganvília, como era aliás a maioria dos prédios de S. Filipe. Foi quarto do filho António enquanto solteiro. Dos filhos do dr. Álvaro, o mais velho era o Agnelo, falecido aos 92 anos de idade, em S.Filipe, onde durante alguns anos exerceu o cargo de administrador de concelho. Faleceu em Julho de 1982.

 

Continuando a nossa peregrinação pela rua que ladeia a Praça João Pais, no sentido norte, e no renque do sobrado do dr. Dinis, lado direito, quase que junto ao "Pilorinho", nome dado pelo povo ao mercado municipal, encontramos o sobrado que pertencera a Dona Josefina Avelino.

 

Do lado oposto, quase que de fronte, fica o sobrado que foi de João Monteiro de Macedo e depois de António Vasconcelos Monteiro, irmão de Francisco do Sacramento Monteiro, Pedro, Fidélio e Manuel Peres do Sacramento Monteiro. Este último foi o primeiro juiz de direito natural de C. Verde que ascendeu ao cargo de juiz do Supremo Tribunal de Justiça de Portugal.

 

A seguir ao sobrado onde está instalado o tribunal Judicia fica ao norte o sobrado que foi de António do Sacramento Monteiro, engenheiro agronomo, conhecido pelo vulgo por "Mnhontoneco", irmão do Dr. Miguel do Sacramento Monteiro, médico e director dos Serviços de Saúde de Angola, formado pela Universidade de Coimbra, com estágio em Paris, no ano de 1880.

 

sobrado de Fortunato Gomes de PinaSeparado por uma viela que vai dar ao Alto de São Pedro, fica ao norte, o sobrado de Fortunato Gomes de Pina,"Tuntum" de Nhô Fidel" que foi comerciante e proprietário

 

Voltando ao ponto de partida, o ou seja O Largo de Botica, antigo edíficio de Alfandega, encontramos um prédio rés-do-chão com a fachada para a rua que sobe e vai desembocar no Largo de Misericórdia, o qual conhecemos por sobrado de "Nha Néné José Lima" Araújo, este, o esposo dessa senhora. O verdadeiro nome de Nha Néné é o de Guilhermina Barbosa Araújo. José Lima Araújo tinha uma sobrinha. de nome "Nha Nenezinha", casada com tenente Galvão, pai do capitão Henrique Galvão.

 

No Largo da Misericórdia hoje existem 12 prédios de primeiro-andar, construções recentes da Câmara Municipal, cujas linhas arquitectónicas são muito diferentes dos "sobrados que sobraram". Datam de  1976 essas construções. Seguindo sempre em direcção norte vamos encontrar atrás do sobrado de Franscisco Jose Barbosa "Cá Chiquinho de NhonTone",  um sobrado de varanda corrida que foi de Caetano Monteiro de Macedo; mais tarde de Filipe Santos Silva

 

Continuando o viandante mais para o norte, atrás do Presídio, a leste, existe  dois prédio: um de um andar e o outro de dois andares, os quais pertenciam ao falecido comerciante e prorietário Manuel Ferreira, conhecido pelo vulgo por "Doutor de Chuma". O sobrado de dois andares tem a fachada para um pequeno largo conhecido por largo de Nhônhô de Nica, João de Medeiros Gomes Barbosa.

 

A leste daqueles prédios fica um belo sobrado de primeiro-andar que em tempos idos pertencera a João Carlos da Fonseca - o "Nhô Djancarro" como dizia o vulgo. Depois foi reconstruído pelos irmãos Carlos, Antoninho, Alberto Gomes Barbosa para residência deles e da mãe D. Ana Ruiz Gomes Barbosa, conhecida por Nha Nica. A frontaria foi alterada pela última proprietária. Antes de se chegar aos dois prédios de Manuel Ferreira, um pouco ao sul dos mesmos fica o sobrado de Henrique Rodrigues Pires, o Henrique Tongom.

 

Nas traseiras do prédio da D. Fátima, ao norte, fica o sobrado do  Padre Miguel António Monteiro, natural de Penha de França, ilha de Santo Antão, quem foi pároco da Freguesia de Na. Sa. de Conceição, da ilha do Fogo, durante cerca de sessenta anos.

 

Todas as descrições que vimos fazendo dizem respeito aos sobrados situados na "Bila Báxo" ou Vila Baixa a corresponder à palavra Baixa, da cidade da Lisboa. Para chegarmos a "Bila-Riba", parte alta da Vila, vamo começar por Achada Pato nas traseiras do sobrado de D. Fátima Brandão.

 

Ao norte, fica o sobrado de "Nho Aniba", Anibal Adolfo Avelino Henriques, esposo que foi da Senhora Alina Barbosa Henriques, neta do Dr. Dinis Gomes Barbosa. Em género chalé, foi adquirido pelo Projecto Alemão Fogo-Brava;

 

Seguindo para leste do Alto de S. Pedro vamos encontrar o sobrado que outrora teve varanda corrida e tinha sido mandado construir por João Monteiro de Macedo, o "Néné de Djoca", quem o ofereceu à filha Luiza M. Macedo "Nha Tchitcha", casada com Alfredo José Barbosa, irmão de Raul e Simão José Barbosa, que foi professor de  português no antigo Liceu Infante D. Henrique. Mais tarde o sobra passou para Pedro José Rodrigues; hoje é propriedade da Igreja do Nazareno. O frontispício foi alterado e, em substituição da varanda corrida foram construídas sacadas.

 

sobrado de João Monteiro MacedoA seguir fica o belo sobrado de João Monteiro Macedo, "Néné de Djóca" casado com D. Ana Júlia Barbosa Botelho da Costa Macedo. Eram pais de Abílio, Custódio, António, este conhecido por Nhónhó e, e ainda dos engenheiros electrotécnicos Mário e Joaquim Monteiro de Macedo, formados pela Universidade de Toulouse, França. O Joaquim era conhecido pelo vulgo por "Nhô Botelho" por causa do apelido do tio Joaquim Vieira Botelho da Costa, que foi oficial de Marinha, natural de S. Vicente. Tinham um outro tio do lado paterno de nome Teodoro Monteiro de Macedo, engenheiro, director de Obras Públicas de Moçambique, e governador interino.

 

Continuando um pouco para o sul e a uma distância de cerca de vir metros fica o sobrado de João do Sacramento Monteiro, "Nhô Djonzona", capitão de Marinha sobrado de João do Sacramento MonteiroMercante, casado com Maria do Livramento Macedo (Nha Bia) filha de João Monteiro Maccdo. João do Sacramento Monteiro era irmão do dr. Miguel do Sacramento Monteiro, engenheiro António S. Monteiro, D. Amélia S. Monteiro, viúva de Francisco S. Monteiro, último Morgado da Ilha.

 

Mais ao sul, a uma distância de cerca cinquenta metros fica o sobrado que foi de Agnelo Adolfo Avelino Henriques

Anteriormente tinha sido de Ricardo Barbosa Vicente que era conhecido p "Cá nho Cá". Ele era tio do Ricardo José Barbosa, pai da dra. Gilda Barbosa e do engenheiro agrário Fausto Barbosa. Foi o Nhô Cá quem tinha trazido Guiné o escarumba Colam que, depois de forro, recebeu os apelidos Barbosa Vicente, ficando a ter o nome completo de Augusto Barbosa Vicente.

 

Consta que esse sobrado teria pertencido, em tempos remotos, ao capitão Marcelino José Jorge Tavora Henriques (Familia Henriques), último capitão-mor e Governandor das ilhas do Fogo e Brava. Aquele prédio fica separado do prédio dos pais do Agnelo, no extremo sul da praça ( Alto de S. Pedro) por uma rua que, no sentido leste-oeste vai dar à praça Joao Pais Vasconcelos.

 

Partindo da supracitada praceta. e sempre em frente, em direcção sul de "Bila-Riba", vamos encontrar na Avenida da Central Eléctrica um sobrado com varanda corrida onde estão instalados os Serviços de Registos e do Notariado, construído no seculo XX por Manuel Vieira de Andrade, o "Mané Djonzinho" quem foi durante largos anos regedor da fregusia de Nª Sª da Conceição. Fica nas traseiras do sobrado de Agnelo Henriques. Indo mais ao norte, cerca de duzentos metros. encontramos no Largo de Cruz dos Passos um pequeno sobrado que faz parte de um quarteirão de casas que outrora serviram de escritórios. armazéns e lojas de Filipe Santos Silva.

 

No alto de" Bila-Riba" existiu emtempos muito recuados um grande sobrado que foi propriedade de "Nhô Arbino", cujo nome próprio é o de Albino Avelíno, pai de dr. Álvaro Adolfo Avelíno Henriques. Foi demolido ,ou teria caído de velho.

 

Cremos ter feito referência a todos os sobrados construídos, outrora em S. Filipe. quando os habitantes desta vila, homens dotados de alguns conhecimentos procuravam residir em casa adequadas à sua posição social, facto que destacaremos em capítulo próprio: pois o seu grau de evolução não lhe permitia morar em casasde palha que o povo denomina "fontelexo" - casas circulares de pedras soltas cobertas de palha. Os "funcos" e os "fontelexos" teriam sido demolidos por volta do ano de 1927.

 

Já explicamos no decorrer deste  trabalho que o móbil das construções de sobrados-prédios de um andar ou mais, era preocupação de pessoas evoluídas que escolhiam moradias adequadas à sua posição social, tanto mais que a classe branca ou fidalga oriunda do Reino (Portugal) e também de Itália, Espanha ou França tinha já noções de tipo de construções europeias, se atentarmos que logo depois da descoberta ou achamento das ilhas de Santiago e Fogo (Sam Jacobo e Fillipe), pela Carta Régia de 3 de Dezembro de 1460, D. Afonso V doou ao Infante D. Fernando, seu irmão, os Açores, a Madeira e as ilhas então conhecidos: Sal, Boa Vista, Maio, Santiago e Fogo. Um elemento que nas construções de sobrados denuncia logo importação europeia são as portas e janelas formadas de láminas de madeira que o povo desta ilha chama "veneziana" em vez de persiana. Esta última palavra é de origem francesa e entrou desde há muito no léxi português, tendo, portanto, feito carreira. O português diria janelas de tabuínhas.

 

A antiga vila de S. Filipe foi elevada à categoria de cidade no ano de 1921; Era governador de Cabo Verde Filipe de Carvalho. Houve uma certa influência Abílio Monteiro Macedo, segundo nas suas memorias a que já fizemos alusão neste trabalho.

 

"Teu nome santo de S. Filipe

No céu reluz a rebrilhar ...

Casas velhinhas que amo tanto,

Ondas de e.spumas a murmurar ... "

Pc. Matias Cláudio Simóes

 

A propósito da história de sobrados existe um sobrado no sítio de Baluarte-Norte na área dos Mosteiros, que  pertenceu a Roberto Nozoline, de ascendência italiana, quem era pai do antigo oficial do Exército português Caetano José Nozoline, prefeito e Govemador da Guiné, em princípios do século XIX. Reza a história que àquele foguense, com Honório Pereira Barreto, natural de Santiago, se deve a não anexacão da Guiné aos territórios da França, naqueles áureos tempos. "Nho Caetano", esguio, de cabelos brancos, muito cortez, sempre de sua bengala de castão de prata. Era tio avô do de Quintino Sanches Tavares, que foi esposo de Gestrudes Nogueira, conhecida pelo vulgo por Chichina de Nhánha Mané Nogueira, residente na cidade da Praia.

 

sobrado que foi de Quirino José BarbosaNa nossa ronda pela cidade também encontramos a oeste, no sopé da escadaria que dá acesso ao muro do Presídio, o  sobrado que foi de Quirino José Barbosa.

 

Escostado a este prédio, ao norte, um pequeno sobrado que tinha uma varanda corrida; hoje só tem uma janela. O prédio é continuação de uma casa que foi de uma senhora de alcunha "Mintina" avó materna do António Carreira, cujo nome inteiro era o de António Barbosa Carreira, filho de D. lsaura casada com o capitão de Marinha Mercante Carreira, natural de Portugal. A senhora D. Isaura, segundo nos informaram, faleceu vítima de um encontro que teve na rua com uma pessoa que vinha a correr. Estava ela à espera de ter criança.

 

Também nas traseiras do sobrado do Nhô Marinho Barbosa Vicente existe um outro prédio de primeiro-andar que este vendera ao César Ludgero G. Barbosa, o "Lulú de Nhanhana". Depois passou para falecida D. Ema de Vasconcelos. D. Ema era irmã de Carlos de Vasconcelos, este grande orador parlamentar; foi também ministro das Colónias. O parlamentar Carlos Vasconcelos era parente de Henrique de Vasconcelos que foi deputado da República; embaixador; secretário-geral do Ministério dos Negocios Estrangeiros e autor do Livro "Sangue das Rosas", publicado no ano de 1912, em que descreve as suas aventuras amorosas em Veneza com a sua dama Luisa, e no qual, a certo passo, diz: -"meu coração, meu coraçãoo, que esta atmosfera inebriante e amorosa de Veneza ressuscitou, em que louca empresa te lanças, porque não foges ao amor para fugir à dor'"

 

A  familia Vasconcelos, veio-lhe do ascendente José Joaquim Vieira de Vasconcelos. cavaleiro da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, falecido nesta [lha do Fogo no dia 12 de Março do ano de 1883, sepultado no cemitério-de-baixo que foi privativo da família Sacramento Monteiro, a qual, por casamento com a família Vasconcelos deu lugar a que filhos do mesmo matrimónio tivessem diferente composição de nomes. Exp.: Pedro do Sacramento Monteiro era irmão legítimo de António Vasconcelos Monteiro.

 

"Tudo acontecia no meados do século XVI, quando a ilha tinha já uma vida social desenvolvida." -

 

Extracto do livro Sobrados que Sobraram de Miguel Alves, 1991

 

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obrigado. Adalberto Barbosa

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