DA PROGÉNIA DOS TAVARES, NOBRES FIDALGOS QUE VIERAM A POVOAR ESTA ILHA QUASE NO PRINCÍPIO DE SEU DESCOBRIMENTO
ORIGENS DE ISABEL CORREIA TAVARES
No princípio da povoação desta ilha da Madeira, veio dela um Fernão de Ãnes Tavares, que era primo-irmão de Simão de Sousa Tavares, filhos de dois irmãos, naturais de Portalegre. Este Simão de Sousa Tavares foi alcaide-mor de Aveiro, homem muito discreto, de que por suas boas partes el-Rei D. Manuel e D. João, terceiro do nome, faziam muita conta; o qual depois de viúvo se fez frade capucho, deixando o mundo e largando o morgado a um filho que tinha, por nome D. Francisco Tavares de Sousa, e a alcaidaria-mor, que o dito D. Francisco serviu e não sei se ainda agora serve, mas sendo de mediana idade foi à Índia, onde fez famosas e heróicas obras, servindo de capitão; e depois de velho se veio aposentar em Aveiro, muito rico e nobre fidalgo. Duas filhas que tinha Simão de Sousa Tavares, foram freiras professas e virtuosas religiosas no mosteiro de Santa Clara em Coimbra, onde as vinha ele visitar depois de frade, muito velho e santo, vestido em um hábito de pobre e baixo burel, que andando no mundo se não contentava com ricos vestidos de fina seda; e quando vinha à corte, por el-Rei D. Manuel saber dele quem era e como deixara o mundo, lhe fazia muitas mercês e honras e lhe beijava o hábito. E desta maneira viveu com muita virtude e exemplo de vida, até que se acabaram seus dias no mosteiro dos Capuchos.
Quando começou a reinar D. João, terceiro do nome, tinha Fernão Tavares, pai de Fernão de Ãnes Tavares, dois irmãos, chamados um e outro João Tavares; e, sendo criados do Infante D. Fernando, moços fidalgos de sua casa, os chamava o dito Infante para falar com eles, o que lhe relevava, e às vezes mandando chamar a um, vinha o outro, por serem ambos de um nome; pelo que disse ao mais velho: - já que vos chamais João Tavares, como vosso irmão, para que conheça qual de vós outros mando chamar, vos dou cargo da copa e vos faço meu copeiro-mor. E daí por diante dizia: - chamem cá o João Tavares da Copa, que lhe ficou por apelido. E os filhos e netos dele que chamavam Tavares da Copa, eram nobres fidalgos em Aveiro, alguns dos quais foram ao descobrimento da Índia e lá morreram com muita honra e bom nome em serviço de el-Rei.
Houve em Portalegre grandes diferenças e bandos antre duas gerações, Tavares e outra a que não soube o nome, sobre uma mulher fidalga e muito rica, da geração dos Tavares, que foi tirada falsamente de casa de seu pai e contra vontade de todos seus parentes; e por força a fizeram casar com um filho do fidalgo que a tirou, que era muito pobre e de menos valia que o pai da moça; onde se mataram sete ou oito pessoas e feriram mais de trinta. E porque o dito Fernão de Ãnes Tavares era irmão do pai da moça, foi culpado na morte destes homens, que também eram pessoas de muita qualidade e muito aparentados, e se absentou como outros parentes para diversas partes. Ele foi para a ilha da Madeira, onde casou com Isabel Gonçalves de Morais, mulher nobre, natural da dita ilha, das principais dela; com que sabendo quem ele era, lhe deram bom dote; e daí veio ter com o Capitão Rui Gonçalves da Câmara, que comprou esta ilha, para ela, com grande família, que o servia; onde, pelo não conhecerem que era Tavares, se chamou Fernão de Ãnes, somente, por serem os Tavares buscados e mandados por el-Rei prender; e achando alguns destes, que sabiam haver fugido de Portalegre, faziam justiça neles, porque traziam seus contrários solícitos requerimentos na corte; e pela mesma razão foi Fernão de Ãnes Tavares morar à Ribeira Seca, termo da Ribeira Grande, que ainda não era vila, por ser sertão apartado do porto do mar, por não ser conhecido, onde teve suas fazendas e casas, que agora possuem seus descendentes. O qual houve de sua mulher quatro filhos: João Tavares, Rui Tavares, Anrique Tavares e Gonçalo Tavares; e três filhas: Guiomar Fernandes Tavares, Filipa Tavares e Ana Tavares. E como era generoso, não curava de adquirir tanto para guardar, quanto para gastar, que segundo era aceito ao Capitão, por saber secretamente quem ele era e ver nele partes para isso, seus descendentes foram os mais ricos de toda a ilha; mas ele não procurava muito para si, nem descobria a ninguém quem era, ainda que suas obras mostravam sua nobreza e fidalguia.
1. Fernão de Ãnes Tavares ,1480, filho de Fernão Tavares, "dos Tavares de Portalegre" casou Isabel Gonçalves de Morais, na ilha da Madeira
Filhos
- 2. João Tavares, primeiro filho de Fernão de Ãnes Tavares, faleceu em África, mancebo solteiro, sendo discreto e bom cavaleiro, a quem o Capitão queria muito
- 2. Rui Tavares, mandou também seu pai a África servir el-Rei em Arzila e Tânger, donde veio feito cavaleiro por estromento e alvará do mesmo Rei; grande cavaleiro e judicial; e casou nesta ilha com Lianor Afonso, filha de Francisqueanes, muito rico, contra vontade de seu pai, que era mulher muito de esmolas, de nobre condição, pelo que, para o contentar, foi necessário dar-lhe muita fazenda e com o grande dote viveu sempre muito rico na vila da Ribeira Grande, com muita família de escravos e criados, onde faleceu;
- 2. Anrique Tavares bom cavalgador e benfeitor na República e feito cavaleiro em África, andando lá servindo a el-Rei, casou na vila da Ribeira Grande com Isabel do Monte, filha de João de Piamonte e de Leonor Dias, donde procedem os Montes, nobres cavaleiros de África, onde estiveram servindo a el-Rei; da qual teve oito filhos e três filhas
- 2. Gonçalo Tavares (segue) "muito discreto, e bom cavalgador, amigo de concertos, e de muita virtude, foi servir el-Rei à África, à sua custa, no ano de mil e quinhentos e oito, com seus irmãos, Rui Tavares, e Henrique Tavares e outros homens nobres desta ilha, em companhia de Rui Gonçalves da Câmara, quinto Capitão desta ilha, segundo do nome, onde foram armados cavaleiros, e antre eles o dito Gonçalo Tavares, que no dito ano de mil e quinhentos e oito, aos nove do mês de Março, saiu de Arzila com o conde D. Vasco Coutinho, capitão e governador da dita vila de Arzila, em uma entrada que fez ao campo de Benacultate, em que se tomaram vinte e cinco mouros e mouras e muitos bois e vacas e outro muito despojo; e pelas coisas que fez em armas o dito Gonçalo Tavares, o fez então cavaleiro o dito conde; além de se achar também Gonçalo Tavares em outras cavalgadas e entradas, antre as quais foi uma nas aldeias d’Antemud, em que se tomaram cento e oito mouros e mouras, e muito outro despojo"
- 2. Guiomar Fernandes Tavares,
- 2. Filipa Tavares
- 2. Ana Tavares
- 2. Gonçalo Tavares, casou com Isabel Correia, filha de Martinhanes Furtado de Sousa e de Solanda Lopes, "da qual, afora os falecidos", houve oito filhos e duas filhas
- Filhos:
- 3. O primeiro, Miguel Tavares, que faleceu moço
- 3. O segundo filho, o licenciado António Tavares, "mui bom letrado, discreto e gentil homem, foi casado com Branca da Silva, filha de Sebastião Barbosa da Silva, nobre fidalgo; e indo a Portugal, por procurador desta ilha, lá o fizeram juiz de fora da cidade de Tavira do Algarve, da qual vindo buscar sua mulher, nunca mais apareceu, pelo que se suspeita que se perdeu o navio em que vinha." Houve de sua mulher dois filhos: o primeiro, Gonçalo Tavares da Silva, criado de el-Rei, que é agora capitão de uma bandeira na cidade da Ponta Delgada, discreto e músico, o qual casou com Isabel Cabral, filha de Estevão Alvres de Resende e de Maria Pacheca, de que tem filhos e filhas, todos solteiros. O segundo filho, Jordão da Silva Tavares, alferes da bandeira de seu irmão, de discretos supitos, e músico, casou com Brianda Cabral, filha de João Velho Cabral, de que tem filhos e filhas, como já tenho dito.
- 3. O terceiro filho, Simão Correia, "clérigo discreto, bom latino e bem entendido, foi primeiro beneficiado na vila da Ribeira Grande e depois prior de Rapa e de Mangoal, tendo de renda com estas igrejas oitenta mil reis cada ano, e lá faleceu em Rapa".
- 3. O quarto filho, Fr. Braz Tavares, "de graciosos e discretos ditos, religioso da ordem de S. Francisco, sacerdote de missa, faleceu no mosteiro de Santo Espírito, de Gouveia"
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- 3. O quinto filho, Manuel Tavares Furtado, "bom sacerdote, virtuoso, latino e bem entendido, e tem um benefício na igreja Matriz de Nossa Senhora da Estrela, da Ribeira Grande, aonde reside."
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- 3. O sexto, Duarte Tavares, "andando em casa do Conde de Portalegre, mordomo-mor, que o tinha já dado a el-Rei, e houvera de montar muito na corte pelas boas partes que tinha, deixou tudo, sendo mancebo, gentil homem e discreto, e se fez religioso em S. Vicente de Fora, de Lisboa; o qual, sabido pelo Conde e Condessa, que não queriam que ele fosse frade sem primeiro o fazerem a saber a seu pai Gonçalo Tavares, que nesta ilha fazia pelas coisas de sua fazenda e era de sua criação, o mandaram chamar do mosteiro e rogar ao seu guardião que o não consentisse nele, e trazendo-o com o hábito diante deles, zombando dele os criados do Conde, seus companheiros, os desenganou, que, por mais que fizessem e dissessem, não se havia de apartar de sua tenção; e logo escreveu a seu pai uma carta a esta ilha, em que dizia que ele queria servir a outro Senhor maior que el-Rei, de que ele maior galardão e maior honra esperava, pelo que se despedia dele, esperando de se não verem senão na glória. E d'aí desapareceu e sendo passados alguns anos, sem se saber dele mais que estava na Cartuxa, ou em Santa Cruz de Coimbra; até que Agostinho Imperial escreveu de Génoa a seu pai Gonçalo Tavares, seu compadre e amigo, que ao hospital de Génoa foram ter dois apóstolos, ambos mancebos, pregadores, muito católicos, portugueses, um dos quais se chamava Duarte Tavares, de S. Miguel, cujo companheiro morrera no dito hospital, e dissera que em outro hospital aí perto, no caminho, falecera o dito Duarte Tavares, de S. Miguel, os quais tinham por santos; e não é muito, porque quando ele contra sua vontade foi para casa do Conde, já bom latino, dizia muitas vezes que esperava de acabar no serviço de Deus."
- 3. O sétimo, Jerónimo Tavares, "nasceu mudo e surdo, mas é tão discreto que lhe não faltava senão a fala, que supre com sinais e acenos que faz, entendendo os que lhe fazem, com que alcança as coisas de nossa santa fé, tão inteiramente como qualquer pessoa discreta que souber falar e ouvir; e os mistérios da Encarnação, Nascimento, Morte e Paixão e Ressureição e Ascensão do Filho de Deus, e a vinda do Espírito Santo, e que há Deus trino em pessoas e um em essência. O que vendo o Bispo D. Jorge de Santiago, e o modo e sinais com que mostrava ter esta notícia, lhe mandou dar o Santíssimo Sacramento d'ali por diante, negando-lhe d'antes os seus vigários; e com os mesmos acenos, se confessa muito bem, as vezes que quer, e pelas quaresmas, em que faz sua penitência; e sabe os dias santos, que vêm em diversos tempos, e as prerrogativas deles, dizendo por claros sinais que S. Sebastião é advogado da peste, Santa Luzia dos olhos, Santo Antão do gado e alimárias, S. Braz da garganta, Santo Amaro das pernas. S. João da cabeça e todas as coisas semelhantes. Se dele estão falando, sem olharem para ele, entende que nele falam, sabe conhecer e contratar com prudência, e o merecimento das pessoas e suas gerações e condições. Governa as coisas da lavrança e searas, como qualquer pessoa que fala; entende e joga a bola, e lavra os riscos também, como o melhor jogador do jogo, nem pessoa alguma o pode enganar; em partidos cumpre sua palavra a quem deve, pagando ao tempo que promete, e se não pode, dá sua escusa e pede espera. É muito loução de vontade e finge ser namorado; e é também agastado e colérico, mas dura-lhe pouco"
- 3. O oitavo filho Sebastião Tavares, faleceu moço de nove anos.
- 3. A segunda filha de Gonçalo Tavares, chamada Joana Tavares, foi casada com Sebastião Jorge Formigo, "criado de el-Rei, gentil homem, discreto, filho de Jorge Gonçalves Formigo, cavaleiro do hábito de Santiago, natural de Santarém", de que houve três filhos e três filhas. O primeiro filho, Tomé Jorge Formigo, muito manso, prudente e discreto, casou com Briolanja de Braga, filha de Diogo Fernandes, mercador, e de Catarina de Braga, moradores na vila da Ribeira Grande, de que tem filhos e filhas; e segunda vez casou com Catarina Meirinha, de que tem um filho de tenra idade. O segundo, António Tavares, que casou com Maria Lopes, filha de André Lopes, de que tem filhos e filhas. O terceiro, Duarte Tavares, muito discreto e gentil homem, casou com Lianor de Paiva, filha de Duarte Privado, juiz dos órfãos, na vila da Ribeira Grande, e de Margarida de Paiva, de que tem dois filhos e uma filha; são todos da governança da dita vila. A primeira e segunda filhas de Sebastião Jorge Formigo e de Joana Tavares faleceram de pouca idade. A terceira, chamada Maria Correia, casou com Manuel Botelho da Fonseca, fidalgo, filho de Manuel Lopes Falcão, cidadão de Vila Franca, e de Clara da Fonseca, de que tem dois filhos e uma filha.
- 3. A primeira filha Guiomar Tavares "casou por cartas, tratando o casamento um Simão Lopes d'Almeida, fidalgo, grande amigo de Gonçalo Tavares, que desta ilha fora, com um nobre homem do Cabo Verde, que chamavam António Fernandes, o Rico, e de lá a veio receber a esta ilha, donde a tornou a levar para a ilha do Fogo, onde ele estava por logotente do capitão dela, tendo este cargo muitos anos, até que faleceu no mar, ou se perdeu, indo de Lisboa para lá, levando muita fazenda e indo com a serventia da dita capitania". E depois faleceu ela na dita ilha do Fogo, ficando-lhe do seu marido estes filhos
- Filhos
- 4. João Fernandes Tavares, casou com Isabel de Resende, filha do bacharel João de Resende, de que houve duas filhas, "uma das quais casou com um rico homem da mesma ilha do Fogo, e a outra é ainda solteira"
- 4. Pero Correia Tavares, "casou na ilha do fogo, honradamente, também rico, e é grande cavaleiro"
- Filha:
- 5. Isabel Correia Tavares, casado com Antonio Barbosa Aranha
- 5. Gonçalo Tavares, faleceu solteiro
4. Isabel Correia, "que agora é casada com Luís Fernandes d'Ase, criado de el-Rei, de gente nobre de Évora, juiz dos órfãos na dita ilha do Fogo, onde muitas vezes serviu de capitão, e é muito rico, sem ter filhos"
Pedro Alvres das Côrtes era irmão de Lopo das Côrtes, pai de Simão Lopes de Almeida, morador que foi na vila da Ribeira Grande, e faleceu na ilha do Fogo, sendo Capitão dela, homem de grandes espritos, muito parente do conde de Penela, e tem seu brasão e armas, que não pude saber
Simão Lopes de Almeida (que depois foi capitão da ilha do Fogo, Cabo Verde, onde casou com Maria Ferreira, da casa do conde de Portalegre)
Logotente; Comemdador da Ordem; Dano; Morador; Vizinho; Senhor da Terra; Alcaide Mor
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